Um dos primeiros temas trabalhados na obra do CRIDI é a preservação documental, feita em suma pela arquivologia do curso de História. No entanto, junto a isso, o início do livro trará algumas reflexões voltadas à intenção dos profissionais e da importância dessa preservação na sociedade. Isso é exemplificado no caso de algumas universidades e instituições que fizeram uma reforma curricular, dando ao estudante a noção de responsabilidade e memória social. A memória é, para os integrantes do grupo, uma preocupação cultural e política e, nesse sentido, tudo que a envolve vai além da simples preservação física de algo considerado histórico. É interessante reparar que o esquecimento é visto como uma ação do psicológico, e não como ausência de pensamento. É uma espécie de tática que o inconsciente toma para atingir alguns estágios, como o de felicidade, por exemplo.
A temática da atualidade no livro se torna presente com o termo “digital”, o qual muda toda a ideia da prática da preservação. De algo físico e palpável, a conservação da memória é, agora, algo presente em uma espécie de “nuvem”, característica da digitalização social. A informação, cada vez mais eficaz e rápida, torna o processo de memorização um verdadeiro desafio imposto aos profissionais da preservação. Também é um desafio para o que os autores chamam de “Sociedade da Informação”, que por vezes não é capaz de acompanhar tudo o que é disponibilizado. É nesse sentido que se forma toda uma crise de identidade no ato da conservação da memória, que se confunde entre passado tradicional, da fisicalidade, e futuro digital, que existe na “nuvem”. Por outro lado, a rede digital não é vista como algo essencialmente negativo: o problema vem apenas com a falta de reflexão e esvaziamento de criticidade.
Posteriormente, toda a análise dos artigos recorre sobre uma noção política muito forte. Os arquivos, que no passado eram “segredo de Estado” para manutenção do poder, agora passam a ser acessados pelo cidadão. Atualmente, essa ideia da “informação a favor da cidadania” é vista através dos computadores, que acabam por democratizar (em partes) o acesso às informações. Isso é visto pelos autores como uma problemática, já que esse acesso não conscientiza da maneira correta, sendo, por outro lado, um serviço de manipulação ampliado. É essa a dualidade que será trabalhada com a ideia da dialética de Marx. A relação da mídia é, hoje, algo contraditório, na medida em que possibilita uma ampliação do acesso à informação, ao mesmo tempo em que ainda é mantida por interesses de poder. Sendo assim, a rede é um espaço para reivindicações contra hegemônicas, mas também é espaço mantido por essa classe superior que, na maior parte das vezes, não objetiva a construção do conhecimento. Para o grupo CRIDI, mesmo havendo a contradição, os processos informacionais do ciberespaço podem ainda ampliar a consciência social. Isso ocorre quando existe uma conexão e troca de saberes, ideias, críticas e conceitos humanistas, formando a chamada “inteligência coletiva”.
O livro vai chegando ao fim com o debate da democratização pelos meios digitais. Primeiramente, na opinião dos autores, seria necessária uma alfabetização informacional que conscientizasse e gerasse uma visão crítica da realidade social. Ainda assim, fica claro que há ainda um caminho a ser percorrido para que essa democratização seja realmente uniforme e democrática.
A obra é finalizada com dois últimos temas ligados à preservação de memória: a microfilmagem do período colonial da Bahia e a rememoração da história da Universidade Federal da Bahia. A participação do SOIMA 2007 (Safeguarding Sound and Image Collections) também é colocada em forma de artigo, sendo um evento onde foi possível obter mais conhecimento na preservação da memória. Portanto, o livro termina com temas mais leves coletados e vivenciados pelos componentes do grupo.
“Cultura, Representação e Informação Digitais” é uma obra teórica e bastante densa em conteúdo, mas ainda assim, de linguagem tranquila, fazendo com que a leitura seja bastante fluida. É interessante o fato de que o livro venha junto com um debate sobre a dialética de classes de Karl Marx, pois falar de meios digitais é falar em uma luta de poder extremamente presente.
Em minha opinião, a ideia de que esses meios são contraditórios é muito legal e verdadeira, porque mesmo se tratando de um espaço democratizador de informações, também é um meio que seleciona para quem essa democracia é voltada. Sabemos que, hoje, não são todas as pessoas que possuem o acesso aos meios digitais, portanto, quando o assunto é a preservação da memória, ainda existe uma boa parte da sociedade que não consegue fazer parte do que é arquivado. Essa parcela que é excluída fica, ainda, distante de contra hegemonia que é feita por alguns grupos minoritários que se apropriaram desses meios, como a causa feminista, a causa racial e homossexual.
O livro é importante, pois consegue conscientizar sobre a importância da preservação da memória partindo de outros temas menores, mas não menos importantes. É uma leitura muito prazerosa e que fomenta várias discussões e reflexões mais humanas, proporcionando outra visão acerca dos meios digitais e da sociedade como um todo.

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